Um grande passado pela frente
O projeto consiste em uma série de retratos das mulheres que compõem minha família — mãe, irmã, tias, avós, primas e a mim mesma — produzidos a partir de processos fotográficos diversos. Essas imagens são posteriormente deslocadas por meio de intervenções manuais, especialmente o bordado, criando uma superfície híbrida entre fotografia e prática têxtil.
A pesquisa parte da compreensão das artes têxteis como tecnologias de transmissão de saberes entre mulheres. Historicamente associadas ao espaço doméstico e frequentemente desvalorizadas enquanto prática artística, essas técnicas persistem como formas de criação, comunicação e vínculo, atravessando gerações e ressignificando-se no tempo.
Os retratos funcionam como um campo de elaboração sobre pertencimento, identidade e herança. Ao intervir sobre essas imagens, não apenas represento essas mulheres, mas também construo modos de me relacionar com elas, inclusive na ausência. Nesse sentido, destaca-se a presença de uma imagem construída a partir da combinação entre fotografia e inteligência artificial: o retrato de uma avó que não conheci e da qual não possuo registros. A criação dessa imagem evidencia a dimensão ficcional e afetiva do arquivo, propondo-o não como um dado fixo, mas como um território em constante reconstrução.